A tese que deu origem ao conceito foi defendida na ECA/USP em fevereiro de 2026 e ouviu 1.306 universitários paulistas. Com 53% dos brasileiros já se informando por redes sociais, segundo o Reuters Institute, a disputa por visibilidade deixou de ser apenas editorial: ela define como pessoas e empresas passam a ser encontradas, relacionadas e compreendidas
Para a maioria dos brasileiros, a principal porta de entrada da informação já não é a televisão. O Digital News Report 2026, do Reuters Institute for the Study of Journalism, da Universidade de Oxford, apontou que 53% da população recorre às redes sociais para acompanhar notícias, enquanto 44% seguem pela TV. No mesmo estudo, 13% dos brasileiros disseram consultar chatbots de inteligência artificial toda semana para se informar, uma das maiores taxas entre os países pesquisados, e a confiança geral nas notícias caiu para 36%, o menor patamar em doze anos de série histórica.
Os números descrevem uma mudança de canal, mas apontam para algo mais profundo. Antes de formar uma opinião sobre qualquer assunto, uma pessoa precisa ter sido exposta a ele, e essa exposição passou a ser organizada por sistemas automatizados que selecionam, ordenam, recomendam e distribuem conteúdo. É esse deslocamento que o conceito de Opinião Algorítmica, desenvolvido pelo pesquisador Emilio Alves DON, procura nomear.
O que é Opinião Algorítmica?
Durante boa parte do século 20, a formação da opinião foi estudada a partir da influência de pessoas, grupos sociais, instituições e meios de comunicação. A Opinião Algorítmica acrescenta a esse quadro a participação dos sistemas que hoje intermedeiam o acesso à informação. Não se trata de afirmar que os algoritmos determinam o que as pessoas pensam. A proposta é mais sutil: eles participam das condições em que a opinião é construída, porque ajudam a definir a quais conteúdos cada usuário será exposto.
O conceito nasceu de pesquisa empírica. A tese de doutorado que o originou foi defendida na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo em fevereiro de 2026, sob orientação do professor Luiz Alberto de Farias, e investigou a influência da inteligência artificial na formação da opinião de jovens universitários.
O estudo ouviu 1.306 estudantes de 17 instituições de ensino superior do estado de São Paulo. Entre os entrevistados, 66,8% afirmaram já ter mudado de opinião a partir de conteúdos consumidos em redes sociais. Boa parte deles reconhece que o que vê é personalizado por algoritmos e, ainda assim, segue usando essas plataformas de forma intensa. A pesquisa identifica aí uma tensão: há consciência sobre a mediação algorítmica e, ao mesmo tempo, dependência cotidiana dos ambientes em que ela opera.
O ponto prático é que ninguém consegue examinar tudo o que está disponível. Em um ambiente de excesso, é necessário que algum sistema estabeleça prioridades e organize o fluxo. Assim, a pergunta “o que você pensa?” passa a ser precedida por outra: “o que você viu?”. Quando determinados conteúdos são repetidamente apresentados e outros permanecem praticamente invisíveis, forma-se um ambiente informacional específico para cada usuário.
A mesma lógica se desloca de opiniões políticas e sociais para pessoas, empresas e marcas. Antes de contratar um fornecedor, avaliar um profissional ou decidir sobre uma compra, é cada vez mais comum recorrer a uma busca, e o que aparece ali forma a primeira percepção. Uma empresa pode ter história longa, equipe qualificada e resultados relevantes, mas, se essas informações não estiverem disponíveis e organizadas no ambiente digital, elas terão pouca participação na percepção de quem pesquisa.
O que a busca devolve também não é a totalidade de uma trajetória. É uma representação montada a partir de fontes dispersas: sites, redes sociais, notícias, vídeos, artigos, páginas institucionais e avaliações. Mecanismos de busca e sistemas de inteligência artificial precisam relacionar esses fragmentos para descrever uma entidade, e o resultado varia. Pessoas têm homônimos, empresas dividem nomes com outras organizações e marcas costumam ter presença digital fragmentada. A disputa por reputação passa a ser, também, uma disputa por representação.
O que é blindagem reputacional?
Blindagem reputacional é o nome dado à abordagem que responde a esse cenário. Não se trata de esconder informação negativa, manipular resultados ou tentar controlar o que os algoritmos exibem. Trata-se de construir uma presença digital sólida, coerente e verificável, com fontes suficientes para que a pessoa ou a organização seja identificada e compreendida corretamente.
Na prática, significa deixar de depender de uma única página, rede social ou matéria. Um executivo pode reunir site próprio, LinkedIn, entrevistas, artigos e páginas institucionais. Uma empresa pode somar site, conteúdo especializado, imprensa, vídeos, estudos e páginas de produto. Quando essas fontes apresentam informações coerentes e legítimas sobre a mesma entidade, a representação digital fica mais estável.
A reputação, nesse arranjo, deixa de estar concentrada em um lugar só. O site institucional apresenta a organização, o LinkedIn apresenta as pessoas, uma entrevista apresenta a visão, uma universidade comprova formação ou pesquisa, uma publicação registra reconhecimento externo. A rede também permite estabelecer relações: uma empresa associada a fundadores, produtos, especialistas e projetos; um profissional associado à formação, às organizações por onde passou e aos conceitos que desenvolveu. Quanto mais claras e verificáveis forem essas relações, mais contexto os sistemas terão para interpretar.
É por isso que estratégias de busca vêm se aproximando de uma questão mais ampla, a construção de território semântico. A pergunta deixa de ser apenas como colocar uma página em primeiro lugar e passa a ser como fazer com que buscadores e sistemas de inteligência artificial compreendam corretamente quem é a entidade, o que ela faz e pelo que é reconhecida. É nesse território que atua a Indexe, que desenvolve estratégias de presença digital e posicionamento para pessoas e empresas.
Quem é Emilio Alves DON?
Emilio Alves DON é pesquisador, professor e empreendedor, doutor em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. Além da tese que originou o conceito de Opinião Algorítmica, desenvolve uma linha de pesquisa dedicada à relação entre algoritmos, comportamento, comunicação e opinião, com foco em como a arquitetura das plataformas digitais, os sistemas de recomendação e a extração de dados interferem na experiência informacional dos usuários.
Resta uma questão que o próprio campo ainda não resolveu. Se a percepção sobre uma pessoa ou uma empresa depende cada vez mais do que os sistemas conseguem encontrar e relacionar, quem responde por aquilo que eles deixam de encontrar?

